Também existem versões mais elaboradas dessa história: algumas dizem que o protetor solar impediria a absorção de vitamina D, outras afirmam que seria melhor usar “protetores naturais” feitos em casa.
Mas o que realmente sabemos?
A resposta curta é: não há evidência científica de que o uso correto de protetor solar cause câncer de pele.
Na verdade, a exposição à radiação ultravioleta (UV) é um dos principais fatores ambientais relacionados ao desenvolvimento de câncer de pele. A proteção solar faz parte das estratégias utilizadas para diminuir os danos provocados por essa radiação.
De onde veio essa história?
A ideia de que o protetor solar seria perigoso não surgiu completamente do nada.
Existem discussões científicas legítimas sobre a segurança de determinados filtros, absorção de ingredientes pela pele, alergias, irritações e possíveis efeitos ambientais de algumas substâncias.
O problema acontece quando essas questões são transformadas em uma conclusão muito maior:
“Alguns ingredientes precisam ser estudados” vira “protetor solar causa câncer”.
São coisas completamente diferentes.
Uma revisão publicada em 2022 analisou justamente a desinformação relacionada ao câncer de pele na internet. Entre os conteúdos encontrados estavam afirmações de que o protetor solar seria perigoso, ineficaz ou até responsável pelo câncer de pele. Os autores destacaram esse tipo de informação como um dos principais temas de desinformação encontrados online.
Mas os ingredientes do protetor não são absorvidos pela pele?
Alguns filtros solares podem apresentar absorção sistêmica em determinadas condições, e essa é uma área legítima de pesquisa.
Isso, porém, não significa automaticamente que uma substância absorvida seja perigosa.
Absorção e toxicidade não são a mesma coisa.
Para dizer que um ingrediente faz mal, é necessário avaliar dose, exposição, metabolismo, efeitos observados e qualidade das evidências.
Além disso, os protetores solares disponíveis no mercado passam por regras de segurança e controle regulatório.
Portanto, encontrar um estudo mostrando que determinado filtro pode ser detectado no organismo não permite concluir, sozinho, que o produto causa câncer ou outras doenças.
“Mas protetor solar causa câncer?”
Essa afirmação não é sustentada pelas evidências atuais.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente avaliou especificamente a relação entre uso de protetor solar e melanoma. Os autores não encontraram associação entre o uso de protetor solar e aumento do risco de melanoma.
É importante observar que o estudo também não conseguiu demonstrar, com aquele conjunto de estudos observacionais, uma redução estatisticamente significativa do risco de melanoma. Os próprios autores apontaram limitações metodológicas e grande heterogeneidade entre os estudos.
Isso é um bom exemplo de como interpretar ciência sem transformar um resultado em uma manchete exagerada.
“Não conseguimos demonstrar proteção em determinado conjunto de estudos” não significa “o protetor provoca câncer”.
E a vitamina D?
Esse é outro argumento bastante utilizado contra o protetor solar.
A vitamina D pode ser produzida pela pele após exposição à radiação UVB. Por isso, existe uma preocupação teórica de que uma proteção solar muito rigorosa pudesse reduzir essa produção.
Mas isso não significa que seja necessário abandonar o protetor solar.
Uma revisão sistemática publicada em 2021 avaliou estudos controlados e randomizados sobre proteção solar e seus efeitos. Os autores não encontraram efeitos significativos do uso de protetor solar sobre vitamina D, densidade mineral óssea ou mortalidade.
Além disso, vitamina D pode ser obtida por alimentação e suplementação quando indicada.
Portanto, não é uma boa ideia trocar proteção contra radiação UV por exposição solar deliberada apenas com o objetivo de produzir vitamina D.
“Mas protetor solar não deixa de funcionar quando sua pele esquenta?”
Não.
O protetor solar não funciona como uma capa que simplesmente impede a pele de receber qualquer radiação.
Os filtros solares absorvem, refletem ou dispersam determinadas faixas da radiação ultravioleta, dependendo da composição do produto.
Uma revisão publicada em 2024 descreveu os diferentes mecanismos dos filtros solares e seu papel na proteção contra queimaduras, fotoenvelhecimento, alterações de pigmentação e danos relacionados à radiação UV.
É justamente por isso que a expressão “amplo espectro” é importante: significa que o produto foi desenvolvido para oferecer proteção contra diferentes faixas de radiação UV.
Então todo protetor solar é perfeito?
Também não.
Protetores solares podem causar irritação ou alergia em algumas pessoas. Além disso, nenhum produto substitui completamente outras formas de proteção.
Roupas, chapéus, óculos de sol, sombra e evitar exposição solar intensa também fazem parte da fotoproteção.
Uma revisão sistemática publicada em 2021 encontrou benefícios do uso regular de protetor solar na prevenção de queratoses actínicas e observou resultados favoráveis também para alguns tipos de câncer de pele e fotoenvelhecimento, embora os autores tenham destacado que ainda existem limitações nas evidências disponíveis.
E o “protetor solar natural” feito em casa?
Aqui precisamos ter ainda mais cuidado.
Óleos vegetais, manteigas e outros ingredientes naturais podem ter propriedades interessantes para a pele, mas isso não significa que sejam equivalentes a um protetor solar testado.
O problema é que não conseguimos simplesmente olhar para uma receita e saber qual é o FPS real, quanto de radiação UVA ela bloqueia, quanto tempo essa proteção permanece ou se a mistura é estável.
Ou seja: colocar óxido de zinco, óleo de coco ou qualquer outro ingrediente em uma receita caseira não transforma automaticamente a mistura em um protetor solar confiável.
E o protetor solar envelhece a pele?
Na verdade, acontece justamente o contrário.
A radiação ultravioleta contribui para o fotoenvelhecimento, incluindo alterações de pigmentação, rugas e danos estruturais.
Uma revisão publicada em 2021 reuniu evidências sobre o uso de protetores solares e concluiu que eles ajudam a prevenir danos relacionados à radiação UV, incluindo fotoenvelhecimento e alterações de pigmentação.
Um estudo realizado com 290 mulheres brasileiras acompanhadas durante um ano também encontrou menor progressão de determinados sinais de envelhecimento e manchas no grupo que utilizou diariamente um produto fotoprotetor padronizado.
Então posso usar protetor solar todos os dias?
Para a maioria das pessoas, sim.
O mais importante é utilizar um produto adequado, aplicar quantidade suficiente e reaplicar quando necessário, especialmente durante exposição prolongada ao sol, suor ou contato com água.
E não precisa transformar isso em uma competição de FPS.
Um produto adequado e utilizado corretamente é mais útil do que um protetor caríssimo que fica esquecido no armário.
O que é verdade e o que é fake news?
“Protetor solar causa câncer.”
Não há evidência científica que sustente essa afirmação.
“Alguns filtros solares precisam ser avaliados quanto à segurança.”
Sim. Segurança dos ingredientes é uma área legítima de pesquisa.
“Protetor solar pode causar irritação ou alergia.”
Sim. Algumas pessoas podem apresentar reações a componentes da fórmula.
“Usar protetor solar impede completamente a produção de vitamina D.”
Não. As evidências não sustentam essa afirmação como regra.
“Protetor solar protege contra os danos da radiação UV.”
Sim. A fotoproteção é uma estratégia importante para reduzir danos causados pela radiação ultravioleta.
No fim das contas...
Questionar produtos de beleza e saúde é saudável.
O problema é quando uma informação verdadeira é retirada do contexto e transformada em uma conclusão que os estudos não permitem fazer.
Sim, ingredientes de protetores solares continuam sendo estudados.
Sim, alguns produtos podem causar irritação ou alergia.
Sim, existem discussões sobre absorção de determinados filtros.
Mas nada disso significa que “protetor solar faz mal” seja uma conclusão científica.
Quando o assunto é proteção solar, vale muito mais confiar em evidências do que em um vídeo dizendo que descobriu “a verdade que a indústria não quer que você saiba”.
Referências
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