Se você já sentiu que seu cabelo absorve água e produtos muito rápido, mas também parece perder hidratação com facilidade, provavelmente já ouviu falar em porosidade capilar.
Na internet, é comum encontrar a classificação do cabelo como de baixa, média ou alta porosidade. Mas existe uma diferença entre essa classificação popular e o que a ciência realmente estuda.
A porosidade está relacionada à estrutura da fibra capilar e à facilidade com que água e outras substâncias conseguem penetrar ou sair dela. Quando a estrutura do fio sofre danos, principalmente na cutícula e no córtex, essa movimentação pode ser alterada.
E isso ajuda a explicar por que cabelos danificados podem ficar mais ásperos, secos, quebradiços e difíceis de manter alinhados.
O que é a porosidade do cabelo?
O fio de cabelo não é uma estrutura maciça e uniforme. Ele é formado principalmente por proteínas, especialmente a queratina, e apresenta diferentes regiões estruturais.
Na parte mais externa está a cutícula, formada por camadas de células sobrepostas que funcionam como uma espécie de proteção da fibra.
A cutícula não serve apenas para deixar o cabelo visualmente alinhado. Estudos recentes mostram que ela participa ativamente do controle da interação da fibra com a água e influencia propriedades mecânicas do cabelo.
Por baixo dela está o córtex, que constitui a maior parte da fibra e está diretamente relacionado à resistência mecânica do fio.
Quando a estrutura do cabelo sofre alterações, podem surgir regiões mais permeáveis e alterações na chamada porosidade da fibra.
Por isso, quando falamos que um cabelo está “poroso”, não estamos dizendo simplesmente que suas cutículas estão “abertas”. A realidade é um pouco mais complexa.
Por que o cabelo fica mais poroso?
A porosidade pode estar relacionada às características naturais da fibra, mas também pode aumentar como consequência de danos químicos, físicos e ambientais.
Descoloração e coloração
Processos químicos podem alterar profundamente a estrutura da fibra.
A descoloração, por exemplo, pode provocar alterações na cutícula e no córtex. Um estudo publicado em 2024 observou que cabelos submetidos a descoloração excessiva apresentaram separação e ruptura das células da cutícula e formação de estruturas porosas no córtex.
Isso ajuda a explicar por que cabelos muito descoloridos frequentemente apresentam maior fragilidade, aspereza e dificuldade para manter suas propriedades originais.
Calor e danos mecânicos
Secador, chapinha, escovação e outras práticas também podem contribuir para alterações estruturais quando realizadas de maneira repetitiva ou excessiva.
Um estudo publicado em 2025 avaliou cabelos texturizados submetidos a ciclos que simulavam práticas comuns de cuidados, incluindo lavagem, secagem com secador associada à escovação e uso de chapinha.
Os pesquisadores observaram alterações na permeabilidade à água, na superfície da fibra e nas propriedades mecânicas e térmicas do cabelo. Os efeitos foram mais evidentes conforme os ciclos de dano aumentavam.
Ou seja: não é necessário ter feito uma descoloração para que o cabelo sofra danos relacionados à porosidade.
Lavagem
Até a lavagem faz parte dessa história.
Surfactantes presentes em produtos de limpeza podem interagir com componentes da fibra. Um estudo de 2022 observou que determinados surfactantes podem favorecer a perda de componentes proteicos e aumentar a área interna e o volume de poros do cabelo.
Outro trabalho, publicado em 2023, observou que tratamentos repetidos com surfactantes estavam associados à redução da densidade interna da fibra e relacionou esse fenômeno à formação de regiões porosas.
Isso não significa que lavar o cabelo seja ruim. A questão é que a rotina de cuidados é formada por várias etapas, e o efeito acumulado de limpeza, química, calor e manipulação pode influenciar a integridade da fibra.
Sol, radiação UV e poluição
O ambiente também pode participar do processo.
Em um estudo publicado em 2024, cabelos previamente danificados foram expostos à radiação ultravioleta e a partículas ambientais. A radiação UV aumentou a porosidade dos fios danificados, e a combinação entre UV e material particulado produziu um efeito ainda maior.
Portanto, proteger o cabelo não significa apenas pensar em química e ferramentas de calor.
Mas dá para “tratar” a porosidade?
Aqui existe uma diferença importante entre reparar o cabelo e melhorar a aparência e o comportamento de uma fibra danificada.
O fio que já saiu do couro cabeludo é uma estrutura queratinizada e não possui capacidade de regeneração biológica como um tecido vivo.
Por isso, um cosmético não consegue simplesmente transformar permanentemente uma fibra danificada em uma fibra virgem.
O objetivo do tratamento cosmético é reduzir os efeitos do dano, proteger a fibra e melhorar suas propriedades superficiais e mecânicas.
1. Condicionamento
Condicionadores e máscaras podem melhorar o comportamento da fibra ao reduzir atrito, melhorar o desembaraço e favorecer uma superfície mais uniforme.
Além disso, ingredientes capazes de interagir com a fibra podem ajudar a reduzir alguns efeitos provocados pelos danos químicos e físicos.
Um estudo de 2022 avaliou formulações contendo proteínas e polissacarídeos em cabelos submetidos a processos de coloração e descoloração. Os tratamentos avaliados reduziram danos estruturais e aumentaram a resistência dos fios em condições experimentais.
Isso não significa que qualquer produto com “proteína” irá reconstruir um cabelo danificado. O resultado depende da formulação, dos ingredientes, da concentração e da condição da fibra.
2. Óleos podem ajudar?
Alguns óleos possuem evidências experimentais interessantes.
Em um estudo publicado em 2022, pesquisadores avaliaram óleos capilares à base de coco e observaram redução do aumento da porosidade associado ao dano por surfactantes. O trabalho também encontrou efeitos relacionados à resistência da fibra e à proteção da cor.
A explicação proposta pelos pesquisadores envolve a capacidade dos componentes do óleo de interagir com regiões internas da fibra e dificultar determinados processos de difusão e perda de componentes.
Mas atenção: isso não significa que passar óleo de coco seja uma “cura para cabelo poroso”.
O estudo avaliou uma preparação específica e condições experimentais específicas. Portanto, não é correto transformar esse resultado em uma promessa de que qualquer óleo, aplicado de qualquer maneira, irá reparar qualquer cabelo.
3. Reduzir a fonte do dano
Talvez essa seja a parte mais importante.
Se a porosidade está relacionada ao dano da fibra, não adianta tentar compensar continuamente um dano que continua acontecendo.
Uma rotina mais cuidadosa pode incluir:
- reduzir o uso excessivo de fontes de calor;
- evitar processos químicos sucessivos sem necessidade;
- utilizar produtos condicionantes adequados ao estado do fio;
- desembaraçar com menor atrito;
- proteger os fios durante exposição solar prolongada;
- evitar manipulação excessiva quando o cabelo estiver fragilizado.
O estudo de 2025 sobre cabelos texturizados reforça justamente essa ideia: ciclos repetidos de procedimentos físicos e químicos podem produzir alterações cumulativas na estrutura da fibra.
E o famoso teste do copo com água?
Provavelmente você já viu a dica de colocar um fio de cabelo em um copo com água para descobrir se ele tem baixa, média ou alta porosidade.
Apesar de ser um teste extremamente popular nas redes sociais, ele não deve ser tratado como um método científico para diagnosticar a porosidade do cabelo.
A pesquisa científica utiliza métodos instrumentais para estudar propriedades relacionadas à porosidade, como microscopia, análise de sorção, testes de permeabilidade e diferentes avaliações das propriedades físicas e mecânicas da fibra.
Então, em vez de tentar descobrir uma “categoria” de porosidade através de um teste caseiro, pode ser mais útil observar o estado real do cabelo e identificar quais práticas estão contribuindo para o dano.
Afinal, como cuidar de um cabelo poroso?
Em vez de procurar um único ingrediente ou uma receita milagrosa, pense em proteger a fibra de forma contínua.
Um cabelo danificado pode se beneficiar de condicionamento adequado, redução de agressões químicas e térmicas e produtos formulados para melhorar a proteção e o comportamento da fibra.
E talvez a principal conclusão seja esta:
A porosidade não é simplesmente um defeito que precisa ser “fechado”. É uma característica relacionada à estrutura e à integridade da fibra capilar.
Quando o cabelo se torna mais poroso por causa de danos, o melhor caminho não é tentar “selar” magicamente o fio, mas reduzir novas agressões e utilizar cosméticos capazes de melhorar suas propriedades enquanto ele cresce e é substituído naturalmente.
Referências
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